Literatura no ringue: a luta do século

Literatura no ringue: a luta do século

25/10/2018 0 Por Vinicius de Andrade

“Nas aulas que ministro de literatura comparada, sempre ocorre um ritual incômodo. No início de cada semestre, busco identificar o repertório de leitura dos alunos, a fim de estabelecer o diálogo intertextual que justifica a disciplina. Contudo o resultado da iniciativa é melancólico. Machado de Assis? Talvez tenham lido “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e uma magra seleção de contos. Guimarães Rosa? Sim, “ouviram” falar – afinal, o curso é breve; porém é interminável a travessia do sertão rosiano. Poetas? Quase todos fazem versos, mas poucos buscam a chave do poema”. 

Neste trecho, retirado desta matéria publicada no caderno “+mais”, da Folha de S. Paulo, a problemática apresentada pelo professor João Cezar de Castro Rocha é real e cada vez mais presente. A escassez de leitura por parte dos alunos – com o agravante, na matéria, de estarem estes alunos justamente em busca de especialização na literatura, ou mesmo no vasto campo que abrange a língua portuguesa – e a fragilidade com que estas já poucas leituras são preservadas, é motivo de reflexões das mais variadas e tem tomado espaço de certa importância em tempos eminentemente tecnológicos.

A literatura e o mundo digital

De fato, a tecnologia e seu assombroso avanço faz com que a literatura pareça um ser pré-histórico e extinto. Um fóssil qualquer que teve um dia seu lugar na história e que agora merece – quando muito – um olhar curioso. Mas será este relacionamento, entre tecnologia e literatura, tão simplista e repelente assim?

Um pensamento que tem se tornado lugar comum, inclusive nos meios acadêmicos, é o de que a literatura tem concorrentes duros a enfrentar: a televisão, a música digital e a internet, para citar alguns exemplos. Muito se tem especulado sobre isto, sobre a sobrevalorização de uma perante a outra, da importância do cânone em detrimento da “puerilidade” das mídias de massa e dos gêneros mais apetecíveis ao gosto popular.

Porém, será mesmo que essa concorrência é travada entre essas formas distintas de expressão? De certa maneira, sim. A televisão e o cinema, por exemplo, foram imensamente eficazes em anexar “territórios” antes dominados somente pela literatura. As adaptações, as personagens e suas tramas, todas foram apropriadas por estas novas mídias que acabaram por ceifar algumas veias que nutriam um certo lugar de prestígio mantido pela literatura há algum tempo. Tão bem sucedida fora essa apropriação que se perguntássemos a alguns jovens se algum deles já leu Shakespeare, a grande maioria responderia negativamente. Mas, se ainda resolvessem ler Romeu e Julieta, não achariam grande novidade aquela trama, uma vez que o arquétipo shakespeariano do amor impossível permeia todas as temporadas da telenovela adolescente Malhação, além de muitas outras telenovelas brasileiras.

“Os antigos territórios do romance tinham sido anexados pelo universo da comunicação imediata. A imaginação do mundo já não acompanhava o romancista. O entusiasmo, a curiosidade, tampouco”, diz Carlos Fuentes, nas páginas iniciais do livro Geografia do Romance (Rocco, 2007), sobre a derrocada daqueles territórios que outrora eram quase que exclusivos do romance. “Há um século e meio, uma multidão se reunia nos cais de Nova York à espera da chegada da última parte do romance de Dickens The Old Curiosity Shop. Todos queriam saber se um dos seus personagens principais, a enjoativa Little Nell, tinha morrido ou não […] No nosso tempo, as multidões se desesperam por saber quem disparou contra J. R., o vilão da Série de televisão norte-americana Dallas”. Através das palavras de Fuentes podemos observar que a necessidade da ficção permanece, mas o gênero que o público busca para satisfazê-la não é mais (somente) o romance, ou a literatura.

O mesmo se deu com o jornalismo, com o cinema e o rádio. A apropriação da literatura é inegável e inevitável, porém não é o decreto de seu fim. Há muito tempo o Homem desenvolveu a habilidade de produzir e manipular a energia elétrica para diversos fins, inclusive para preparar alimentos e, no entanto, este não foi o fim do fogo. Por mais que possamos ter um fogão elétrico, o fogão a gás persiste. A princípio a analogia pode parecer simplista, mas é eficaz na elucidação: a literatura, o livro, mesmo que supostamente disputando espaço com a televisão, a internet, o rádio, etc., sobrevive. Aquele livro que mais conhecemos, impresso, bonito e bem guardado na estante, pode sim um dia (talvez) acabar. Mas só aquele tipo, aquele suporte. Hoje em dia vemos uma profusão de livros digitais, os chamados e-books, que agrada a quem gosta de ler, mas não quer deixar de lado a possibilidade da fazê-lo em seus tablets e celulares de última geração. Ou seja: o fogão elétrico e o fogão a gás são capazes de produzir o mesmo fenômeno essencial à vida humana, o calor necessário para preparar os alimentos. E assim também o fazem as diversas formas em que se pode apreciar uma obra literária. Transmite-se – seja no papel, seja na tela do computador – a literatura. Até mesmo os livros digitais estão aquém do que poderão ser daqui a alguns anos. A grande maioria dos e-books que conhecemos hoje são apenas uma transferência do livro impresso para o formato digital – uma digitalização. O suporte digital, porém, oferece muitas outras possibilidades como a interação com o leitor, as animações e diversas outras peripécias que estes aparelhinhos sofisticados podem nos propiciar.

O problema começa quando encaramos a existência simultânea dessas diferentes formas de expressão como concorrência, uma batalha de vida ou morte. Ora, empresas concorrentes são aquelas que produzem o mesmo tipo de produto e brigam para que o seu – e não o de outro – seja comprado. No caso da literatura, tanto a televisão, quanto o cinema e a internet produzem produtos diferentes. Por mais que a apropriação de uma pela outra seja possível e real, são formas de expressão, linguagens, distintas. Esse tipo de pensamento, que trata a literatura como concorrente das mídias, talvez tenha parcela de culpa quando um aluno deixa de ler uma obra para assistir a uma adaptação da mesma para o cinema. Ele certamente pensará que, assistindo àquela adaptação, entrará em contato com o mesmo conteúdo, ou obterá o mesmo resultado que a leitura do livro iria propiciar. É preciso mostrar que a literatura, assim como outros meios de comunicação e transmissão de conhecimento, tem sua linguagem própria, seus próprios valores – estes são inerentes à ela e correspondem às especificidades que a tornam um gênero diferente dos demais. “Todas as formas de narração, que compreendem o filme e a história, falam-nos da vida humana. O romance o faz, entretanto, com mais atenção que a imagem móvel e mais eficácia que a anedota policial, pois seu instrumento penetrante é a língua”, lembra-nos muito bem Antoine Compagnon, aqui tratando do romance, na obra Literatura para quê? (Edições 70, 1982), e completa: “A literatura não é a única, mas é mais atenta que a imagem e mais eficaz que o documento, e isso é suficiente para garantir seu valor perene”. As narrativas ficcionais – ou não ficcionais – podem ser produzidas através de diversas linguagens, diversos gêneros, mas nunca serão iguais. Ainda que uma mesma narrativa, quando transita de um gênero a outro, se torna incapaz de ser idêntica à sua antecessora. Assim, para mais que reiterar um caráter único da literatura, é preciso deixar de alimentar este senso comum de que ela (a literatura) é substituível. Mas, voltando aos problemas que esta visão de concorrência encerra, podemos também apontar outro: a tentativa de incutir um caráter utilitarista na literatura.

Ora, se persiste o engano que é possível apreender o que a literatura encerra através de outros meios que não a própria literatura, para que serviria então ela? Para nada, é claro. Quando encaramos a literatura e as mídias como formas semelhantes, idênticas, sem suas especificidades, abrimos espaço para este tipo de especulação. Nesse sentido, a literatura realmente não serviria para nada – nem ao menos para a descontração e o entretenimento, papéis que são executados muito bem pela mídia televisiva e pela internet, por exemplo.

A literatura não é produtiva

A literatura não é e nunca será capaz de produzir bens de consumo, ou aumentar o rendimento financeiro, garantir um ótimo salário – não diretamente. Ela também perdeu, de certa forma, seu caráter formador, outrora indispensável para a construção daquela tal moral do Homem. Mas, com certeza, é capaz de enriquecer o nosso denominador humano e iluminar novos horizontes.   Porém, isso não parece ser suficiente para enfrentar uma estrutura de sociedade moderna tecnicista (preciso dizer capitalista?), que busca amortizar os flagelos do ser humano através da garantia de um bem-estar baseado na facilitação da vida cotidiana. Não que este seja um aspecto inteiramente ruim da sociedade moderna, só não pode ser encarado como substitutivo daquele outro aspecto, alheio à produção: aquele que pensa, que sente e que vive.

Assim, podemos pensar que essa ideia de concorrência (literatura vs internet vs televisão e etc, etc) geraria toda essa problemática: o desinteresse das pessoas pela literatura, a inutilidade da literatura e etc. Fábio Durão diz, em seu excelente artigo, “a literatura, hoje, não tem relevância nenhuma, não tem utilidade nenhuma, não pode esboçar nenhum tipo de resistência”, fazendo com que a importância da literatura justamente se estabeleça nessa inutilidade, em posicionar-se na contramão do utilitarismo, nessa “nova” resistência.

Portanto, o aluno que deixa de ler obras importantes, ou até mesmo que deixa de ler qualquer obra, acima de qualquer juízo de valor, é impulsionado por essa falsa concepção de que se pode chegar ao cerne do valor literário – seja ele qual for – sem utilizar-se do próprio meio literário. Em outras palavras, aquele velho medo que leva o professor de literatura a pensar “não passarei aquele filme senão ninguém vai ler o livro”, acabando até por privar o aluno de saber do tal filme (o que, na verdade, poderia ser mais um ganho cultural para ele). Seria interessante uma postura, seja do educador, seja da instituição de ensino ou até mesmo do ceio familiar, que procurasse diferenciar os gêneros, as linguagens. Ao professor seria essencial a utilização de filmes, HQs e outros suportes, mas que o fizesse de maneira que aluno consiga buscar coisas diferentes e, principalmente, diferenciá-los no que toca à transmissão de valores específicos. Isso é possível, basta notarmos a infinidade de adaptações literárias que, em seus novos gêneros, se tornaram tão boas que adquiriram algum prestígio – ou mesmo um bom número de leitores/admiradores, como as obras de Machado de Assis que tiveram suas personagens transformadas em zumbis e alienígenas, ou a minissérie da Rede Globo, Capitu – de maneira independente da obra original.

Parece improvável que um dia o Homem irá prescindir da língua, ou, em especial, da língua escrita. Seja pelo caráter historicista que adquiriu a sociedade moderna, seja pela simples necessidade de comunicação. Canclini, no livro Leitores, espectadores e internautas, aponta corretamente que “as telas de nosso século também trazem textos e não podemos pensar sua hegemonia como o triunfo das imagens sobre a leitura”, então devemos nos aproveitar disto. A literatura (os livros), a televisão, o rádio, o cinema e principalmente a internet, não deveriam travar uma relação de concorrência, mas sim de complementação. As ferramentas disponíveis para tal “reversão”, no século XXI, são praticamente infindáveis. Os livros digitais são cada vez mais comuns e é inegável seu alcance entre os jovens, assim como a literatura de entretenimento – e aqui entra a velha briga entre uma tal boa literatura e outra tal literatura ruim, mas esqueçam-na por enquanto. É preciso estreitar estas relações e não mais alargá-las. Não podemos tratar a literatura como uma religião e impregná-la de dogmas, tentar torná-la imutável, principalmente na sociedade dinâmica em que vivemos. O mundo – e as coisas do mundo – está aí para ser mudado – quem há algum tempo atrás diria que as redes sociais, inegáveis instrumentos de alienação e massificação do lazer, seriam capazes de organizar revoltas sociais? É (em grande parte) papel do educador e, mais ainda, dos futuros educadores iniciar essa mudança para garantir, ou reiterar, a relevância da literatura na vida do ser humano. É nosso papel (seja como alunos, professores, pais, ou mesmo internautas distraídos) provar que podemos sim ler um livro, assistir a um filme, acompanharmos uma série e navegarmos na internet e apreendermos coisas distintas em cada um destes atos.

Com isto não quero dizer, por extensão, que o educador é culpado pelo momento que se experimenta atualmente, pelo contrário. Sabemos muito bem que o capitalismo e seus meios de apropriação da cultura têm um papel central nessa história, mercantilizando e limitando nosso acesso a só aquilo que se pode vender/comprar – atravessando desde os níveis das linguagens/mídias/gêneros diferentes (se uma delas vende mais que a outra, elimina-se a que dá menos lucro), quanto no mesmo seguimento (será publicado aquele livro que terá o maior público leitor). Talvez seja esse o cerne que alimenta essa suposta competição entre a literatura e seus “rivais”. Tudo, no capitalismo, tem de competir para ser melhor que seu concorrente e esse pensamento é incutido em nós através de nossa vivência. A todo o momento estamos competindo. Seja por uma vaga na universidade, por um bom emprego… competindo para viver, sobreviver. Talvez colocar a literatura neste ringue tenha sido um descuido de quem já está habituado à isso. Talvez. Acrescente-se aí o batalhão da academia que luta contra a literatura de entretenimento, aquela que vende como água, em nome do cânone. O cânone é, sem dúvida essencial. Mas, num país que pouco lê, menosprezar essa já pouca leitura definitivamente não é o caminho para despertar o interesse pelas obras consideradas mais importantes neste leitor. Para finalizar, e voltando ao que pretendia ser central neste artigo, a questão de posicionamento diante desse pensamento de que estamos tratando da mesma coisa, quando na verdade são coisas distintas, os tais concorrentes da literatura, é só uma parte da coisa toda, mas é de algo importante para os rumos da literatura e para o ensino e cultivo dela. Já que tudo isso (a literatura, as mídias, a tecnologia…o papel) existe – e mais ainda está por vir –, por que os colocar uns contra os outros se podemos fazê-los unirem-se por um bem maior? O nosso bem.

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