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Quem foi Milton Santos: globalização e geografia do lado de cá

Quem foi Milton Santos? Uma breve história sobra a vida do maior geógrafo brasileiro.

“A busca da utopia é algo de ancestral e companheiro do homem, porque o que distingue o homem dos outros animais não é esse dedão, é exatamente o fato de que ele é portador de utopia. Eu sei que hoje se costuma ridicularizar quem fala em utopia, mas não me preocupo em insistir que sem ela não vale a pena viver, e sem ela tampouco é possível pensar, porque o pensamento não é produzido a partir do que houve, nem do que há” – Milton Santos.

Quem foi Milton Santos?

 

Baiano de Brotas de Macaúbas, francês de Tolouse, Bordeaux e Paris. Americano, canadense, venezuelano, peruano. Inglaterra e Tanzânia. Brasil. Milton Santos foi um brasileiro do mundo, pelo mundo. Exilado de seu país natal, o geógrafo peregrinou o mundo para se tornar um dos intelectuais mais importantes de seu tempo, principalmente devido a seus estudos de urbanização do Terceiro Mundo e pela renovação da geografia no Brasil com seu retorno, na década de 1970.

Bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia, doutorou-se em Geografia pela Universidade de Estrasburgo e passou a atuar ativamente na política e no jornalismo após retornar à Salvador. Foi subchefe do Gabinete Civil do governo Jânio Quadros e participou da comitiva presidencial que visitou Cuba. Essa visita, aliada à sua militância política e sua importância em meio a grandes nomes da esquerda, lhe renderia problemas após o golpe de 1964.

Com a instalação do Regime Militar, Milton Santos passou a ser perseguido pelos órgãos de repressão da Ditadura e chegou a ficar 6 meses em prisão domiciliar – devido à intervenção de importantes políticos, seus aliados, que posteriormente também conseguiriam negociar sua saída do país com os militares. Com a intenção de permanecer fora do Brasil por apenas um semestre, o geógrafo acabou ficando 13 anos. Lecionou na Sorbonne em 1968, onde foi diretor de pesquisas de planejamento urbano do Institut d’Étude du Développement Economique et Social (IEDES), e na Universidade de Toronto. Foi pesquisador no Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), onde trabalhou com Noam Chomsky e também onde concebeu grande parte de sua mais importante obra, O Espaço Dividido. Na Venezuela foi diretor de pesquisas sobre planejamento da urbanização da Organização das Nações Unidas (ONU) e no Peru elaborou um trabalho sobre a pobreza urbana na América Latina para a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Convidado a lecionar no University College de Londres, é surpreendido por dificuldades que o impuseram por ser negro e retorna à Venezuela para lecionar na Faculdade de Economia da Universidade Central. Parte depois para a Tanzânia, onde organiza a pós-graduação em Geografia da Universidade de Dar es Salaam por dois anos, até receber o convite para voltar a lecionar no Brasil, feito pela Universidade de Campinas, mas não retorna sem antes desenvolver atividades acadêmicas e de pesquisa na Universidade de Colúmbia de Nova Iorque.

O retorno de Milton Santos ao Brasil

O convite para voltar ao país, feito no final de 1976, e sua inscrição na Universidade da Bahia, fracassaram devido a artimanhas político-administrativas motivadas pelo quadro político nacional. Finalmente consegue se estabelecer no país como Consultor de Planejamento do Estado de São Paulo e, a partir daí, Milton desempenharia um grande papel nas mudanças estruturais do ensino e da pesquisa em Geografia no Brasil. O geógrafo também lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP), onde permaneceria mesmo após sua aposentadoria. Durante sua carreira, publicou mais de 25 livros, entre os mais importantes O Espaço Dividido e A Natureza do Espaço, que arrebatou o Prêmio Jabuti em 1997.

Quem foi Milton Santos para a geografia nacional?

O Espaço Dividido, obra de 1979, é considera hoje um dos clássicos mundiais da geografia por sua teoria sobre o desenvolvimento urbano em países subdesenvolvidos. As ideias do geógrafo sobre a globalização, esboçadas antes mesmo que o conceito ganhasse amplitude mundial, advertiam sobre as possibilidades de se promover o fim da cultura, da produção original do conhecimento – o que abriria caminho para o desenvolvimento destes conceitos por outros pensadores. Escrito dois anos antes de sua morte, o livro Por uma Outra Globalização traça uma abordagem crítica do processo perverso de globalização na atual lógica capitalista. Para Milton, em sua configuração atual, a globalização transforma o consumo em ideologia de vida, apenas acentuando a transformação quase sempre irreversível de cidadãos em meros consumidores, massificando e padronizando a cultura e, por conseguinte, assegurando que a riqueza repouse sob as mãos de poucos.

Além de ter sido considerado um dos “20 Cientistas do Século” e de ter recebido a Ordem Nacional do Mérito Científico, o Prêmio Jabuti e o título de Doutor Honoris Causa por 15 universidades, em 1994 Milton Santos recebeu o Prêmio Vautrin Lud, a maior distinção internacional da Geografia.

Ainda que pouco conhecido fora do âmbito acadêmico, Milton Santos é uma das figuras mais importantes do país e seu trabalho desempenhou uma leitura precisa dos efeitos da globalização, especialmente nos países subdesenvolvidos. Para quem quer conhecer um pouco mais do trabalho do geógrafo, o documentário O mundo global visto do lado de cá, do cineasta Sílvio Tendler, traz uma boa referência sobre quem foi Milton Santos e a importância de seu trabalho para nós.

Principais obras de Milton Santos

Por Uma Outra Globalização

R$35,10

A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo, Razão e Emoção

R$46,40

O Brasil. Território e Sociedade no Inicio de Século XXI

R$67,92

Da Totalidade ao Lugar

R$33,85

A Urbanização Brasileira

R$25,30

Pobreza Urbana

R$25,51

Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá

Produzido pelo cineasta Sílvio Tender, em 2002, o documentário O mundo global visto do lado de cá trata sobre as consequências da globalização sob o olhar de Milton Santos. Nele, o geógrafo discute os perídios de exploração e das descobertas, a globalização da economia e a expansão do capitalismo e todas as marcas que esse sistema deixou no planeta e no Brasil.

Pensamentos de Milton Santos

Reunimos alguns dos pensamentos e frases mais célebres do intelectual baiano abaixo. Estes trechos, de alguma forma, deixam entrever a força do seu pensamento e o que o levou à ganhar tamanha importância.

Eu acho que foi a opção pelo movimento. O fato de eu ter quando garoto me impressionado com essas populações que mudavam de lugar, que se transportavam de um lugar pra outro, acho que isso talvez tenha me dado a dimensão da disciplina.
E o meu gosto pela História, sobretudo pela História do presente, me levou também a valorizar todo o processo contraditório, de modo que não sendo um marxista ortodoxo – eu tenho medo disso, eu tenho medo dos marxistas ortodoxos; eu creio que toda doutrina que não se busca renovar, ela corre o risco de se tornar uma religião, um dogma, por conseguinte te emburrecer e não esclarecer – e desse modo eu me considero um marxista, ou se quiser, um “marxisante”Milton Santos, quando perguntado sobre o porquê de ter escolhido a geografia, no documentário O mundo global visto do lado de cá.

Eu creio que é difícil ser negro e é difícil ser intelectual no Brasil. Essas duas coisas, juntas, dão o que dão, não é? É difícil ser negro porque, fora das situações de evidência, o cotidiano é muito pesado para os negros. É difícil ser intelectual porque não faz parte da cultura nacional ouvir tranquilamente uma palavra críticaMilton Santos, quando perguntado se é difícil ser intelectual no Brasil, no documentário O mundo global visto do lado de cá.

As técnicas são implantadas nas sociedades e nos territórios a partir de uma política. Hoje, a política das empresas globais. Amanhã, a partir da política de Estado, impulsionados pelas NaçõesMilton Santos, no documentário O mundo global visto do lado de cá.

Milton Santos no Roda Viva

No dia 31 de março de 1997, o geógrafo participou do programa Roda Viva, da TV Cultura e abordou temas que iam desde sua vida e trajetória pessoal, até as implicações da globalização e do capitalismo em nossa sociedade. A entrevista teve tanta audiência que, conta-se, os telefones da Cultura não paravam de tocar com pessoas emocionadas pelo programa.

Este post foi publicado pela primeira vez em 11 de março de 2014, no Livre Opinião (com a autorização do autor).

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